terça-feira, 23 de setembro de 2008
O Cárcere
Quanta graça desperdiçada dia após dia por esta vasta legião que arrota as migalhas jogadas como ração, pelos bondosos pastores, redentores e mártires, mercadores do mundo sacro. As vastas nuances de distantes montanhas, que ao Sol mudam de tonalidade, ricas e belas, poderosas em sua espontaneidade, rebaixam-se à imagens desfocadas de uma lente sanguinária, interprete da língua mortífera amplificada às almas perdidas. Florestas tornam-se pastos mastigados por bocas obedientes.
Entretanto, a vida que pulsa no ventre magro dos famélicos da terra suplica a morte. A imagem do pastor pisoteada por um rebanho que não é mais de sua posse, esta sim é a suplica dos povos, é a graça recuperada de uma harmonia perturbada. O desejo urgente da germinação floresce exatamente no terreno mais árido,e senti-lo, sentir furiosamente este desejo que é tão delicado, sensibiliza apenas os que esticam bravamente os pescoços para ver as cores da montanha além das cercas frouxas.
segunda-feira, 22 de setembro de 2008
A Vila
quinta-feira, 18 de setembro de 2008
MIRA! O DESFILE VEM DE ONDE??
Ter de desconversar quando lhes perguntam o próprio nome,
ter de desconfiar a cada sorriso amarelo.
Esta Cria há de trabalhar
ôô se há...
Veio ao mundo desfilar pelas centrais, pelos centrões,
ser amassada nos vagões de uma Estácio qualquer,
chacoalhando no ritmo do cão.
Mas ela há de enxergar
ôô se há...
que sambar só se aprende do lado de cá!
Malandragem contida um dia se vira...
...cala o sorriso do tal amarelo,
arrancando a lama da sola do chinelo.
terça-feira, 16 de setembro de 2008
REFORMA
a velha casa ganha sua nova pintura
paredes e janelas já não trazem marcas.
O cheiro forte do cigarro vai embora
Uma outra camisola veste este doente em sua maca.
segunda-feira, 25 de agosto de 2008
FOLHA UNIVERSAL Nº 666
Reza forte, meu filho
Reza como se fossem lhe arrancar os dentes
Reza porque as algemas lhe apertam e o sangue corre devagar
Faz como teu velho pai,
Reza até chegar a morte,
Porque ela vem mesmo
E se você rezar...
Ela vem até mais rápido!!
Deus há de te ouvir depressa meu filho,
tu vai chegar ao paraíso
antes daqueles que não rezam!
Estes coitados...
Que pena sinto deles meu filho...
Quebram as algemas que Deus lhes deu.
Não rezam!
Não rezam!
Como podem ser livres?
Reza forte meu filho, pois não quero te ver livre.
Não quero que demore a encontrar o céu
O reino de Deus meu filho...
QUERIDO PATRÃO
Sonha...
Sonha com teu passatempo sonha...
...um dia você domina as horas de tal maneira
que teu rosto vai sorrir felicidade
teu “talento” vai atrair amizades como quem
aproveita-se da ingenuidade de uma companheira.
Com tamanha facilidade,
deita e rola pela sacanagem,
sanfona as brincadeiras
num ritmo tão quente
que até o diabo tira o chapéu.
Canta...
Com tua garganta grita...
... uma noite dessas ele descobre teu divertimento na tua cadeira
de tal maneira que teu corpo vai chorar anormalidade
teu desencanto contrai bizarrices como quem
deleita-se da safadeza de sua ratoeira.
Com pequena dificuldade
tua presa implora pela livre viagem
desvia das zombeteiras
numa batida tão de frente
que até um anjo cai do céu.
Santa...
Com tua Tereza Santa...
sexta-feira, 22 de agosto de 2008
R.E.F. escreve ao pequeno príncipe
... escorregam por entre as vozes de um mundo barulhento,
como o sopro construindo com as sementes que sem querer espalhou,
palavras e formas desconhecidas
estranhas e estúpidas a este mundo apressado.
Sem som
Sem traço
Fundindo tamanha confusão que adjetivo algum ousa pintar.
Arrisco acreditar que nascem com a mesma angústia,
o mesmo suspiro,
a mesma busca pelo silêncio e isso é o que existe de mais belo entre nós.
Por vezes sonho com o nascimento de suas cores no papel,
faço que te tenho por perto...
...vejo debruçada sobre a mesa toda a magia da infância que teima em não se afastar
cultivada com o carinho que se tem por uma rosa.
A única rosa.
A que sempre inspira vontade de voltar.
Sua bem guardada cúpula talvez,
seja a verdadeira responsável pelo grande mistério...
...a rosa:
de tantos cuidados recebidos,
nunca toca o ar árido,
não conhece as gotas de uma tempestade,
permanece cândida na fantasia de sua redoma,
por medo de quem a ama.
E é por medo, que nunca respira a verdadeira vida,
não conhece liberdade alguma,
como uma pequena princesa, envolvida de amor
enquanto seus mentores estão sempre a viajar por outras terras,
provando sabores de outros jardins,
testando a voracidade de outros insetos,
sem nunca conseguir deixar de amar,
nem que seja por um momento,
a rosa mais bela e mais triste deste mundo.