sábado, 10 de abril de 2010

No cartório

“As cadeias da humanidade torturada são feitas de papel de ministério.”
F.K.


Chove cem anos de solidão na calunga dos pretos novos.
Morrem antes, morrem cedo.
Correm sem sair do lugar em filas de oficiais carentes,
ninfas brancas atoladas num lodaçal de merda quente com baforadas secas da pureza perdida.

O preto e branco de tinta no sangue
como um carimbo de vida sem sentido.
O leva e traz de solidão e desprezo
como a paixão degolada sem olhos nem bocas.

Reconhece a firma fria,
o polegar sujo de uma existência mastigada com areia.

Leva e traz solidão e desespero!!
Teu infortúnio não goza mesmo o salpicar doce dos desejos...

sábado, 13 de março de 2010

Na estação

Receitava humor aos olhos cansados na estação como um exercício de criatividade que parecia um rastro de lama ao soterrar infelizes: cru e inevitável.
Não pelos fatos ou por qualquer outra ninharia, mas por gostar de estar só, manteve o hálito da noite saciada como azeitonas para expulsar qualquer aproximação carente dos retardatários sedentos da estação que corre pelo toque do infortúnio; ébrios unidos sobre a aspereza do solo ao verem em todo fim de tarde um por do sol que ainda vale a pena ser tragado.
O marco, a pedra fundamental que situou o pátio dos pesadelos foi exatamente a sensação de ser ainda tão passante, tão sóbrio, como qualquer outra criação mundana no terreiro dos amaldiçoados, gira de rua do povo malandro, da estação que sente no âmago do lombo o triste peso das correntes, da chibata, do senhor das almas com seu charuto.
Loucura e sanidade.
Afasta a carne podre mas segue com força na ginga que não tira o pé do chão, porque quem cai, vai à toa a vida inteira levando rasteira da ingratidão.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Palavras de criança pra uma vida que chega logo

Manhã que parece uma criança...
pelas frestas espia um mundo preguiçoso,
e com pássaros acorda o silêncio.

Criança que parece mesmo com a manhã...
sorrisos pros de bom coração
e cara feia pros que dizem não.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Para Erêndira um escrito besta

“... vivia na sua penumbra, descobrindo outras formas de beleza e de horror que nunca imaginara no mundo estreito da cama...”
Gabriel Garcia Márquez 1972
A Incrível e Triste História de Cândida Erêndira e sua Avó Desalmada


Viu desta vez as montanhas. Sentiu-se mais do que aliviada e quase absurdamente feliz com uma sensibilidade enfeitando a razão anteriormente reta como se a partir desta aventura os cabelos pudessem lhe cobrir os olhos novamente sem que lhe tapasse a visão. Para tanto não lhe faltou esforços, visto que as raízes dos vivos moirões que a cercavam iam tão firmes e profundas que nem mesmo o farpado de um arame se fazia necessário, reparando ser esta cruel estratégia tão comum e sutil ao redor de seus pastos que agora era capaz de ver por debaixo do solo desértico onde quer que vá.
Não enojava.
Por entre floreios de cores leves levou por seus acampamentos o silêncio nu de quem cava um escape.
Erêndira agora corre. O sol castiga os preguiçosos com seus tentáculos dourados e Erêndida por isso corre mais feroz que o vento da desgraça para as montanhas que sempre sustentarão seu corpo, se assim continuar a cavar sua liberdade.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

O frescor de outra aurora

O braço repousa o suor das cicatrizes em um seio negro.
Na alcova deste monte, onde bocejam bocas de madeira sobre uma cidade que dorme, não há clamor que deixe de chegar ao mar ressoando a injúria de um o gozo engasgado na construção de outra aurora. Feixes de luz não nascem fácil. Cores vivas entre tambores, pálidas em meio ao fumo e escorregadias entre o sexo, compõem a embriaguez necessária à volúpia dos raios da luta. O cenário mais belo reflete o olhar do expectador. No morro, o baixo porto dos botequins foi jogado pro alto com seus senhores e seus ares de manhã, bastando apenas o dia em que o gozo escorra pela aurora de um rígido seio negro e que o sopro refresque o suor novamente.

The Blues are Brewin

Entre a ultima fonte segura de prazer e o nascer de novos pelos na barba rejuvenescida, o firmamento escangalhado com suas reviravoltas parou de vez sobre o próprio eixo.
Era o silêncio de uma menina respirando a paisagem.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Genealogia da revolta

"Os primeiros que saem compreendem com seus ossos
que não haverá paraiso nem amores desfolhados
sabem que vão ao lodaçal de números e leis,
a brinquedos sem arte,a suores sem fruto.
A luz é sepultada por correntes e ruídos
em impudico reto de ciências sem raízes.
Pelos bairros há gentes que vacilam insones
como recém saídas de um naufrágio de sangue."

Federico Garcia Lorca "A Aurora" 1929



Eis que teu instrumento tocou as notas azuis do infortúnio quando num verão blasfêmico o sopro excitou tuas costas onde nenhum amante conseguiu tocar.

O gemido, o vinagre e o sal da ferida pueril, limbo ardente da insone gira dos bêbados, fizeram doer o que já era sangue.

Como só agora notaste a melodia quebrar o oco do altar?

O ritmo do rio por entre os sulcos da Terra ressoa troncos vivos em mãos fortes aos ouvidos surdos do deserto até que raízes novas num verão blasfêmico dancem como bêbados insones as notas azuis de um infortúnio ardente.