Deixa clarear.
Quem nasce no colo dos pobres clareia a vida sendo a própria luz.
Isso basta.
Assim disseram os que me ensinaram a liberdade sem chorar migalhas ao mundo.
Foram riso e foram suor.
Mas nunca dor.
Dor passa.
E o que fica é luta.
Deixa clarear.
E isso basta.
Depois o vento que sempre vem
quebrou as coisas velhas e varreu a sala com seu jeito de mostrar
levando pra fora o que foi preciso
pro quintal do tempo, onde outra verdade ilumina.
De cor viva, de cheiro forte, de gosto ébrio, de pele úmida.
Mas nunca de sofrimento.
Isso passa.
E o que fica é amor.
Deixa clarear.
E isso basta.
E daí que chego longe a ponto de ver outro povo.
Povo que também ri, que também luta, que também goza.
Companheiros, com alegria e com trabalho.
Mas nunca com arrependimento.
Porque coisa assim passa.
O que fica é ensinamento.
Deixa clarear.
Isso basta.
quarta-feira, 23 de novembro de 2011
terça-feira, 27 de setembro de 2011
Irmãos
Y así nos reconocemos
por el lejano mirar,
por la copla que mordemos,
semilla de inmensidad.
Atahualpa Yupanqui - "Los Hermanos"
Quando passarem os corpos no desfile sem cores das ruas, lá não estaremos.
Não estaremos lá quando os dentes carregarem a felicidade vazia dos tempos vividos.
E quando não existir mais nada para não estarmos, a solidão encontrará nossos gemidos e estaremos juntos enfim.
Nossos olhos que choram pertencerão ao breve silêncio de nossa eternidade e assim nos reconheceremos irmãos.
por el lejano mirar,
por la copla que mordemos,
semilla de inmensidad.
Atahualpa Yupanqui - "Los Hermanos"
Quando passarem os corpos no desfile sem cores das ruas, lá não estaremos.
Não estaremos lá quando os dentes carregarem a felicidade vazia dos tempos vividos.
E quando não existir mais nada para não estarmos, a solidão encontrará nossos gemidos e estaremos juntos enfim.
Nossos olhos que choram pertencerão ao breve silêncio de nossa eternidade e assim nos reconheceremos irmãos.
terça-feira, 20 de setembro de 2011
Iansã
Oyá,
descobre do teu jeito que sempre o sol se põe diferente.
Hoje tudo é descoberta, tudo é ar e movimento nesses teus cabelos de terra molhada.
Um dia,
lá longe quando o raio não caía,
o rosto que não via outro rosto que lhe mirasse
esperava sem querer a vida parar de lhe tirar os seus.
Hoje a espera já se foi...
... a força já é tua, mas é desejo teimoso e pede que isso você não esqueça.
Diz com cheiro suave de mata que trovoada demais afasta.
Implora que teu vento seja a fertilidade que vem
trazendo um calmo sono após gozar na tempestade.
descobre do teu jeito que sempre o sol se põe diferente.
Hoje tudo é descoberta, tudo é ar e movimento nesses teus cabelos de terra molhada.
Um dia,
lá longe quando o raio não caía,
o rosto que não via outro rosto que lhe mirasse
esperava sem querer a vida parar de lhe tirar os seus.
Hoje a espera já se foi...
... a força já é tua, mas é desejo teimoso e pede que isso você não esqueça.
Diz com cheiro suave de mata que trovoada demais afasta.
Implora que teu vento seja a fertilidade que vem
trazendo um calmo sono após gozar na tempestade.
terça-feira, 23 de agosto de 2011
Arte só
Foi ao peito o chapéu das horas em respeito ao vazio teatro dos pobres.
Quieto, cabisbaixo e às cócegas com a lama estranha que escorregava pelas marcas do rosto, ouviu os aplausos fantasmas de seus ex-amores em mais uma noite de encenação solitária.
Pelos fundos sai ao porto, trôpego de cinza a negro, de mãos dadas com a ausência até que o sol envergonhe suas feridas expostas.
Segue itinerante o espetáculo, errante por essência.
Mais um poeta artista da fome.
Quieto, cabisbaixo e às cócegas com a lama estranha que escorregava pelas marcas do rosto, ouviu os aplausos fantasmas de seus ex-amores em mais uma noite de encenação solitária.
Pelos fundos sai ao porto, trôpego de cinza a negro, de mãos dadas com a ausência até que o sol envergonhe suas feridas expostas.
Segue itinerante o espetáculo, errante por essência.
Mais um poeta artista da fome.
Classes
pra Guilherme, do teu irmão que luta...
É simples.
Uma vez ao ano, flor embucha, fruta vem e quando chuva tem, povo planta.
Gente humilde que não é boba...
trabalha, espera e come.
No trabalho canta, na espera cria e quando come bebe.
É simples.
Gente não humilde que é boba...
não trabalha, só espera, só come.
vive do canto, vive da cria, vive da comida feita por outros.
É triste.
Quando a vida chora gente humilde cala
como é injusta gente boba ri.
É simples.
Uma vez ao ano, flor embucha, fruta vem e quando chuva tem, povo planta.
Gente humilde que não é boba...
trabalha, espera e come.
No trabalho canta, na espera cria e quando come bebe.
É simples.
Gente não humilde que é boba...
não trabalha, só espera, só come.
vive do canto, vive da cria, vive da comida feita por outros.
É triste.
Quando a vida chora gente humilde cala
como é injusta gente boba ri.
quarta-feira, 3 de agosto de 2011
Para essa tal vanguarda poética / 2
"De tanto mirar la luna,
ya nada sabes mirar.
Eres como un pobre ciego,
que no sabe a dónde va."
El Poeta - Atahualpa Yupanqui
Há de se criar.
sem nada além de luz
sem razão que seja...
pois o mistério exige.
mas se sofre o mundo
cria como quem traz chuva
pra que ninguém se ofusque no feixe claro da ilusão.
ya nada sabes mirar.
Eres como un pobre ciego,
que no sabe a dónde va."
El Poeta - Atahualpa Yupanqui
Há de se criar.
sem nada além de luz
sem razão que seja...
pois o mistério exige.
mas se sofre o mundo
cria como quem traz chuva
pra que ninguém se ofusque no feixe claro da ilusão.
quarta-feira, 20 de julho de 2011
Canta
para Cecília e seu sorriso de 110 anos...
Seca a língua do tempo.
Não traz consigo rugas ou virgens dores,
não conta anéis do tronco torto dos anos.
"Canta porque existe,
nem alegre nem triste
Poeta."*
Como o silêncio que ri e chora,
tudo que não envelhece por não ser
sonha por necessidade
obediente ao infinito você.
* adaptado de "Motivo"
Seca a língua do tempo.
Não traz consigo rugas ou virgens dores,
não conta anéis do tronco torto dos anos.
"Canta porque existe,
nem alegre nem triste
Poeta."*
Como o silêncio que ri e chora,
tudo que não envelhece por não ser
sonha por necessidade
obediente ao infinito você.
* adaptado de "Motivo"
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