Sob o manto sombreado, ervas úmidas descansam com seus ínfimos e dedicados amores. Em espantosa quietude suspiram devagar trêmulas juras de cumplicidade aos que rastejam no solo; força e fragilidade numa pureza que deita pássaros e flores, insetos e arbustos, ao seio da mesma mãe.
Líquen e dossel silenciosamente evoluem e compõe cada qual à sua complexidade o cenário mais belo ao olhar atento daquele que nada procura. O rio, com seu eterno curso, também evolui e faz correr suas águas sem se importar se a carne que procura banho perde o vigor pela indiferente mão do tempo.
Há mulheres e homens nesta mesma floresta partilhando o rastejar do solo, o descanso dos pássaros, cúmplices como tantos outros dos amores harmoniosos das mais ínfimas relações, em paz como ervas ao silêncio de suas sombras. A semente os alimenta em doce gracejo louvando sua chegada ao solo, como parte de um delicado enovelamento de evoluções.
quinta-feira, 6 de novembro de 2008
Preto e branco
Não houve piedade até a hora da morte. Ao menos nunca de sua parte escorregou um desviar de olhos que lhe fizesse duas ou mais vezes pensar nos ergástulos asfixiantes através de eufemismos bondosos. Sentia ódio, sentia desprezo incalculável pelos fortes surtos de obediência em que haviam se metido seus semelhantes. Por entre dores fortes no coração, dirigia ásperas centelhas de mau humor preto e branco aos partidários de um só deus.Deus que por entre névoas, desfila soberano frente ao caos e conforma os rebeldes. Cega, emudece, e estoura os tímpanos do frágil amor pela verdade. Amor que revela a face dos doces espíritos, tiranos e corruptores comungando o colorido de um baile que teima em arranjar novas formas de não deixar seus convidados sem bebida. Secam fontes de vinho, criam, desfazem e arrotam porcamente ponto e vírgula de um viver sem causa.
A morte também negou-lhe a piedade. Serviu como tampão dos poros até saciar a embriaguez. Morre como um cão odiado por farejar sombras que olhos insensíveis desprezam. Inspira orgulho à quase ninguém, mas sustenta mesmo assim sobre uma poça de sangue, o corpo desfigurado e seu olhar convicto de paixão eterna pelo único e poderoso amor pela verdade. Não houve mesmo assim piedade alguma até a hora de sua morte.
A morte também negou-lhe a piedade. Serviu como tampão dos poros até saciar a embriaguez. Morre como um cão odiado por farejar sombras que olhos insensíveis desprezam. Inspira orgulho à quase ninguém, mas sustenta mesmo assim sobre uma poça de sangue, o corpo desfigurado e seu olhar convicto de paixão eterna pelo único e poderoso amor pela verdade. Não houve mesmo assim piedade alguma até a hora de sua morte.
quarta-feira, 22 de outubro de 2008
R.E.F. escreve a Afonso
...o pior erro do rebanho é achar que o mundo vai até onde a vista alcança.
Tens a chave de suas jaulas em mãos
(e sem dominar teu saber), sabe disso;
mas mantem-se ali por puro medo.
Saiba homem prisioneiro:
- Basta fechar os olhos daí de dentro de tua gaiola;
para que tenha o poder de explodir um mundo-inteiro.
No entanto, abandonado confortavelmente nas poltronas de sua sala escura,
deslumbra-se pela luz e pelo movimento;
que quase hipnotizam .
Os rosto humanos (iguais ao teu) fascinam-te a ponto de alegrar-se pela bruta mudança de ambientes.
Tua desgraça faz que aceite os lugares comuns mais depreciados.
Espectador dos seres e de coisas concretas:
-Isóla-te em seu habitat psíquico, que assim, quase adormece graças ao silêncio da escuridão.
Êxtase!!! Nenhuma outra expressão humana melhor define essa vergonha.
Mas melhor que qualquer coisa, esse estado é capaz de embrutecê-lo.
Tuas portas dominam tuas entradas. Caluniam para teus ouvidos; escondem as chaves; mudam as fechaduras;
Nem se quisesse se libertar.
(Mas não quer!!!)
Elas sofrem para ter grande cuidado em não perturbar tua tranqüilidade.
Deixando fechada a maravilhosa janela da tela sobre o mundo libertador da poesia.
Optam por fazê-lo refletir parcialmente os argumentos que podem compor uma continuação dessa nossa vida comum ( repetindo mil vezes o mesmo drama ou fazendo esquecer as horas penosas do trabalho diário.)!
http://www.tuta-e-meia.blogspot.com/
Tens a chave de suas jaulas em mãos
(e sem dominar teu saber), sabe disso;
mas mantem-se ali por puro medo.
Saiba homem prisioneiro:
- Basta fechar os olhos daí de dentro de tua gaiola;
para que tenha o poder de explodir um mundo-inteiro.
No entanto, abandonado confortavelmente nas poltronas de sua sala escura,
deslumbra-se pela luz e pelo movimento;
que quase hipnotizam .
Os rosto humanos (iguais ao teu) fascinam-te a ponto de alegrar-se pela bruta mudança de ambientes.
Tua desgraça faz que aceite os lugares comuns mais depreciados.
Espectador dos seres e de coisas concretas:
-Isóla-te em seu habitat psíquico, que assim, quase adormece graças ao silêncio da escuridão.
Êxtase!!! Nenhuma outra expressão humana melhor define essa vergonha.
Mas melhor que qualquer coisa, esse estado é capaz de embrutecê-lo.
Tuas portas dominam tuas entradas. Caluniam para teus ouvidos; escondem as chaves; mudam as fechaduras;
Nem se quisesse se libertar.
(Mas não quer!!!)
Elas sofrem para ter grande cuidado em não perturbar tua tranqüilidade.
Deixando fechada a maravilhosa janela da tela sobre o mundo libertador da poesia.
Optam por fazê-lo refletir parcialmente os argumentos que podem compor uma continuação dessa nossa vida comum ( repetindo mil vezes o mesmo drama ou fazendo esquecer as horas penosas do trabalho diário.)!
http://www.tuta-e-meia.blogspot.com/
Luís, o semeador
Junte cinco homens a adorar um outro qualquer que verá como nascem os corvos.
Tudo havia de lhe mostrar... tudo ao seu redor apontava o erro inevitável que estava prestes a cometer. Porém, arrancar vidas inocentes em algum desses lugares já por demais acostumados à morte, não lhe causava mais tanto alarde pois aprendera com seus seguidores que os espíritos só seguem as almas dos assassinos quando estes sujam a mão de sangue. Aprendeu portanto, a lavá-las bem... Descobriu formas de não fitar suas vítimas nos olhos, de nem ao menos saber seus nomes, de escorraçar corpos surrados sem a mínima piedade até que sua fama esteja rejuvenescida. Mais pragas, mais poder! Mais chagas marcam pobres doentes de uma terra envenenada.
Ó semeador, “que a mão do tempo e o hálito dos homens murchem a flor das ilusões da vida”*
Que seus filhos comam algo melhor do que o pão cultivado por suas mãos, pois outros não terão a mesma sorte...morrerão secos como folhas, por tuas fórmulas mirabolantes.
*Joaquim Maria M.de A., Musa Consolatrix 1864
Tudo havia de lhe mostrar... tudo ao seu redor apontava o erro inevitável que estava prestes a cometer. Porém, arrancar vidas inocentes em algum desses lugares já por demais acostumados à morte, não lhe causava mais tanto alarde pois aprendera com seus seguidores que os espíritos só seguem as almas dos assassinos quando estes sujam a mão de sangue. Aprendeu portanto, a lavá-las bem... Descobriu formas de não fitar suas vítimas nos olhos, de nem ao menos saber seus nomes, de escorraçar corpos surrados sem a mínima piedade até que sua fama esteja rejuvenescida. Mais pragas, mais poder! Mais chagas marcam pobres doentes de uma terra envenenada.
Ó semeador, “que a mão do tempo e o hálito dos homens murchem a flor das ilusões da vida”*
Que seus filhos comam algo melhor do que o pão cultivado por suas mãos, pois outros não terão a mesma sorte...morrerão secos como folhas, por tuas fórmulas mirabolantes.
*Joaquim Maria M.de A., Musa Consolatrix 1864
terça-feira, 7 de outubro de 2008
O encanto da morada
Passa por estas portas e sente o nojo de vê-las abertas só aos teus senhores. Segue firme com a ânsia, impede o vômito de sujar tua manga, mas não deixe de golfar, pois sufocaria com a viscosidade da obediência.
Noite passada a mesa foi posta. Refestelam-se com carne de servos, reunidos atrás de cada estandarte. Tal carne não sacia a gula, apodrece e espalha fedor por ruas inteiras, antes mesmo de esvaziarem as bandejas.
Abandona o posto que te designam. Querem sempre te ver onde está agora: do lado de fora dos portões, com o rabo entre as pernas e um olhar de recompensa. Desafia, mesmo que só um pouco, o vigia da entrada, que verá seu desespero encarnado em violência contra teu corpo. Tentará te desmembrar, engolir a seco teus ossos e ainda sim refletirá a postura de mantedor da ordem, pacificador cristão.
Somente isso, porém, não te faz deixar de desafiá-lo. Todas as vezes que passa por estas portas, teu estômago embrulha, o guarda empunha, teu vômito sobe, o punhal lhe corta, teu sangue no chão, tua náusea em vão??!! Teu senhor sabe que não... cada maltrapilho embriagado à sua porta traz tamanha insegurança, que começa a ter medo da própria carne durante a janta. Sabe que um dia o vômito das ruas entra pelas janelas e afoga sua luxúria.
Mas se acha, entretanto, que deve sorrir ao ver o jardim tão belo de seu benfeitor, se acha entretanto que fui imperativo, exagerado ou decadente... põe a mesa, que teu senhor tem fome... retire-se educadamente, retorne a tua pocilga e agradeça tua lavagem diária a Deus e à virgem Maria na hora de dormir entre teus amigos porcos conformados.
Noite passada a mesa foi posta. Refestelam-se com carne de servos, reunidos atrás de cada estandarte. Tal carne não sacia a gula, apodrece e espalha fedor por ruas inteiras, antes mesmo de esvaziarem as bandejas.
Abandona o posto que te designam. Querem sempre te ver onde está agora: do lado de fora dos portões, com o rabo entre as pernas e um olhar de recompensa. Desafia, mesmo que só um pouco, o vigia da entrada, que verá seu desespero encarnado em violência contra teu corpo. Tentará te desmembrar, engolir a seco teus ossos e ainda sim refletirá a postura de mantedor da ordem, pacificador cristão.
Somente isso, porém, não te faz deixar de desafiá-lo. Todas as vezes que passa por estas portas, teu estômago embrulha, o guarda empunha, teu vômito sobe, o punhal lhe corta, teu sangue no chão, tua náusea em vão??!! Teu senhor sabe que não... cada maltrapilho embriagado à sua porta traz tamanha insegurança, que começa a ter medo da própria carne durante a janta. Sabe que um dia o vômito das ruas entra pelas janelas e afoga sua luxúria.
Mas se acha, entretanto, que deve sorrir ao ver o jardim tão belo de seu benfeitor, se acha entretanto que fui imperativo, exagerado ou decadente... põe a mesa, que teu senhor tem fome... retire-se educadamente, retorne a tua pocilga e agradeça tua lavagem diária a Deus e à virgem Maria na hora de dormir entre teus amigos porcos conformados.
terça-feira, 23 de setembro de 2008
O Cárcere
O pior erro do rebanho é achar que o mundo vai até onde a vista alcança.
Quanta graça desperdiçada dia após dia por esta vasta legião que arrota as migalhas jogadas como ração, pelos bondosos pastores, redentores e mártires, mercadores do mundo sacro. As vastas nuances de distantes montanhas, que ao Sol mudam de tonalidade, ricas e belas, poderosas em sua espontaneidade, rebaixam-se à imagens desfocadas de uma lente sanguinária, interprete da língua mortífera amplificada às almas perdidas. Florestas tornam-se pastos mastigados por bocas obedientes.
Entretanto, a vida que pulsa no ventre magro dos famélicos da terra suplica a morte. A imagem do pastor pisoteada por um rebanho que não é mais de sua posse, esta sim é a suplica dos povos, é a graça recuperada de uma harmonia perturbada. O desejo urgente da germinação floresce exatamente no terreno mais árido,e senti-lo, sentir furiosamente este desejo que é tão delicado, sensibiliza apenas os que esticam bravamente os pescoços para ver as cores da montanha além das cercas frouxas.
Quanta graça desperdiçada dia após dia por esta vasta legião que arrota as migalhas jogadas como ração, pelos bondosos pastores, redentores e mártires, mercadores do mundo sacro. As vastas nuances de distantes montanhas, que ao Sol mudam de tonalidade, ricas e belas, poderosas em sua espontaneidade, rebaixam-se à imagens desfocadas de uma lente sanguinária, interprete da língua mortífera amplificada às almas perdidas. Florestas tornam-se pastos mastigados por bocas obedientes.
Entretanto, a vida que pulsa no ventre magro dos famélicos da terra suplica a morte. A imagem do pastor pisoteada por um rebanho que não é mais de sua posse, esta sim é a suplica dos povos, é a graça recuperada de uma harmonia perturbada. O desejo urgente da germinação floresce exatamente no terreno mais árido,e senti-lo, sentir furiosamente este desejo que é tão delicado, sensibiliza apenas os que esticam bravamente os pescoços para ver as cores da montanha além das cercas frouxas.
segunda-feira, 22 de setembro de 2008
A Vila
Muito lhe foi dito acerca da perspectiva de gozar com seus próprios sentidos. Tocar-se em êxtase, contrair as volúpias de ser ébrio exige, entretanto, um alto nível de notoriedade frente à divina providência, concedida exclusivamente aos fétidos monarcas esmagadores de consciência. Só o flagelo lhe é próprio. Procura por vezes, cores e aromas que preenchem visivelmente os arredores do castelo, sentindo porém que a atração baseia-se apenas em provar por instantes o néctar desconhecido. Não deseja possuí-lo pela eternidade pois não saberia, ao fim da vida, educar seus filhos em um pátio que seus pés não reconhecem. O castelo é místico pois lhe é negada a entrada. A porta que detém as sagradas arcas atrai, e esta é sua exclusiva função, seu grande motivo de existência: Situar posições. Inspira orgasmos que nunca serão gemidos e assim eleva-se em seu pedestal, suprimindo do alto de sua cátedra o morador da vila, dono apenas de suas próprias aspirações. Puro e simples, o habitante encara por horas a cerca e padece do mesmo mal que esgota seus companheiros, o único sentimento a que lhes mantém vivos: esforçar-se em todas as dimensões para que os pedaços de mármore depostos venham a compor as lápides reais, a morada coletiva de todos os monarcas deste pútrido castelo.
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